terça-feira, 13 de junho de 2017

O uow de Boracay nem é Boracay - Filipinas | parte 2

"A gratidão é a consciência de que ninguém vai a qualquer lugar significativo sozinho". Ed. Rene Kivtz

Acordei ao som dos outros hóspedes indo para o café da manhã. Parecia que tinha dormido bem e levantei como uma criança para seu primeiro dia de aula, animadíssima para descobrir quais coleguinhas ficaram na mesma sala e quem seria a nova professora - me arrumei no capricho, com bastante protetor solar, para me encontrar com Boracay. 

O salão do café da manhã era cara-a-cara com o mar. Desculpa, gente, não é trocadilho: mas que vista mar|a-vi-lho-sa!

Logo uma moça veio me atender com o clássico e estridente "Good morning, ma'aaaaam", que só os asiáticos sabem fazer; e me entregou o cardápio. As opções não me causaram espanto ou novidade - mas eu realmente só precisava comer qualquer coisa. 

De todo modo, não sou mesmo de encarar mini-refeições como desjejum e pulei, quase que com pesar, a opção local: noodles com mistura de carnes apimentadas e arroz-papa, tipo os que recebem os sushis no Brasil; e fui para o "café americano": ovos mexidos, bacon (que dispensei), batata frita (que dispensei - por que, né?, eram oito horas da manhã!) e duas fatias de pão - seco.

"Barriga cheia (#sóquenão), pé na areia", literalmente! Neste primeiro dia, me restringi a caminhar por toda a extensão dessa praia em que estava, White Beach (7km), conhecer as ruas paralelas e me surpreender com a cultura filipina/asiática de tomar sol: foram horas observando os trajes de banho que os protegem da radiação e algumas de incômodo nos momentos em que, ao deitar para desfrutar da belíssima cor azul-verde-água daquele mar, me senti intensamente assediada, a ponto de me vestir e ficar na sombra: uma pena!

No dia seguinte, eu já tinha reservado um passeio de barco para Puka Beach, 30 minutos dali, conhecida não só por sua beleza também paradisíaca, mas pela prática de kitesurfing, que decora ainda mais a paisagem.

Antes de chegarmos até lá, paramos em uma enseada muito bonita, em que não pude mergulhar, por não ter com quem deixar minha mochila - aliás, tinha me esquecido dos contras de viajar sozinha: haverá um dia uma proteção 100% à prova d'água para dinheiro e coisinhas? 

Mais surpreendente do que descer em Crystal Cove, foi parar em alto mar para mergulharmos e vermos corais. A sensação de quando mergulhei, ainda que de roupa, porque 100% do meu grupo era asiático e até as crianças tinham seus corpos cobertos - não quis arriscar - e vi aquele azul-petróleo, com "seus peixinhos a nadar no mar", foi como se eu tivesse encontrado Deus e ele tivesse me dado um abraço aconchegante, abençoado e iluminado por aqueles raios de sol que davam luz e cor ao que parecia escuro.

Passado o sopro no coração por uma gratidão do tamanho daquele oceano, a parada para o almoço foi uma experiência antropológica, mas não saborosa: dividi a mesa com uma família filipina e a forma como comem - e foi nos servido o clássico; frango ao curry com pimenta, arroz-papa, noodles e o tal "barbecue", que é carne de porco bastante apimentada - me deu um desconforto imenso.

Eu entendo, afinal, moro em São Paulo e encontro dificuldades, mas veganos e vegetarianos passariam muito aperto. Eu não sou radical, mas não posso comer pimenta; então mesmo que não me restringisse à carne, a pimenta era um obstáculo. Cheguei até a experimentar um pedacinho do frango, mas não poderia arriscar: "too spicy!".

A mim restou comer o arroz, que não sei se tinha curry, ou se tudo cheirava a curry, e fiquei com o gosto de curry o tempo inteiro; mas não dei conta de participar da dinâmica do almoço da família, com suas mãos lambuzadas e misturadas entre carnes, melancia e manga - e me retirei, constrangida, com meu prato cheio abandonado às moscas e ao calor úmido dos arredores de uma das praias daquele Island Hopping.

Para o dia seguinte, meu último em Boracay, havia reservado um passeio ao Ariel's Point que, pelas fotos, levava a ser um dos lugares mais incríveis em que poderia estar.

Diferentemente do barco à Puka Beach, este para Ariel não tinha nenhum turista filipino e, pela primeira vez, vi europeus - russos, suecos e alemães - além de um casal neo-zeolandes. E, só por isso, relaxei e me abri ao que estava por vir, quase sem expectativas, porque os dias anteriores já haviam sido um presente, cada um à sua forma, e entrei nas rodadas de drinks ainda em alto mar.

Quando enfim o barco atracou, meu Deus!, estávamos no meio do nada, com a água já mais escura e belíssima. Logo as pessoas começaram a saltar, outras a subir os cliffs e a pularem de alturas que variavam de cinco, oito e 15 metros.

Optei por subir a pé a pedra, larguei minha mochila sem qualquer preocupação, "tirei a roupa", fui para a tábua dos cinco metros, olhei pr'aquilo tudo e gritei, em desabafo, com uma força intensa de agradecimento, um enorme "u-hulll" e me joguei, literalmente, naquela experiência.

Ao longo das cinco horas em que ali estivemos, pulei várias vezes - até dos oito metros - tomei cerveja com os gringos, nadei muito, vi mais peixinhos e me diverti vendo as sul-coreanas caírem dezenas de vezes dos stand-up paddles e dos caiaques.

Na volta para o hotel, enquanto caminhava do ponto de desembarque do barco até meu local, sorria gratuitamente, tomando a cervejinha filipina dada pela tripulação, quando decidi parar num dos restaurantes mais badalados de White Beach para comemorar não só os dias, mas a beleza de se ver o que pouco é visto e por me desprender à primeira versão dos fatos - afinal, o ponto alto de Boracay não foi exatamente em Boracay - e a estranheza se transformava no belo: O dia seguinte guardaria novas andanças, surpresas e aprendizados sobre mim mesma.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Como assim, Filipinas?*

Eu não me preparei muito para essa viagem: meu plano A para as férias era o Butão, um sonho antigo, que vez ou outra volta avassalador - e que não foi dessa vez que pude bancar. 

Frustrada, afinal, foram 20 meses desde as últimas longas férias, para, no fim das contas, a conta não fechar; recomecei a pensar em outras paixões asiáticas e, tão logo cogitei "Tailândia", uma amiga me disse: "Se animar esperar Novembro, eu devo ir: Ao menos te garanto companhia".

"Companhia". Tava aí outra coisa que não planejei, aliás, acho que nem cogitei - havendo me programado para o Butão, ir sozinha era quase um modus operandi.

Sem Butão, nem companhia, mas querendo muito Ásia, mesmo com a perspectiva do 2o. semestre; revisitei meus desejos e veio "por que não, Filipinas?". 

Talvez num espaço de duas semanas tudo aconteceu: li o básico (que só chegando nas Filipinas vi que era menos que o básico), tentei dicas de pessoas que já haviam estado lá - but they didn't help much - e, graças aos blogs internacionais (é Brasil, os poucos que achei em português eram tão básicos quanto dar um Google sem foco), fechei o roteiro: Boracay, tida como a Ibiza Asiática, com promessas de praias mais paradisíacas do que as Tailandesas; Puerto Princesa, capital do arquipélago de Palawan, que está mais próxima aos destinos recomendados, como Underground River e Honda Bay e, por fim, El Nido, uma cidade também pertencente a Palawan, mas rodeada por penhascos de pedra calcária, com 45 ilhas à sua - no caso, minha (risos) - disposição.

Até chegar em Boracay a viagem foi exaustiva, talvez porque eu tenha me informado pouco: entre São Paulo e Manila tudo aconteceu de maneira suave - vôos sem sobressaltos e todos no horário. 

Quando cheguei em Manila, sabendo que tinha que trocar de aeroporto (do internacional para o doméstico), comprei uma passagem para Boracay com quatro horas de intervalo - e ainda bem, porque depois de chegar ao terminal doméstico e andar por mais de 20 minutos para-lá-e-para-cá, cada hora seguindo uma orientação, me veio a última de que na verdade eu tinha que sair do aeroporto, pegar um ônibus (pago) e descer no "terminal 4"; eu estava no 3.

Frio na barriga à parte e com receio por já ter trocado os dólares em pesos filipinos e sair na rua sozinha, achei o ônibus e confirmei destino. 

Vinte minutos depois, nada de paradas para desembarque. Levantei do fundo e gritei em inglês "terminal 4?!". O motorista falou qualquer coisa com semblante ruim e gesticulou. Uma anja bilíngue traduziu para mim: "A entrada do terminal 4 já passou. Ele perguntou se alguém ia descer, ninguém respondeu, ele continuou - mas fica tranquila porque ele lembrou de você e vai voltar".

Grata por isso e por estar com tempo de sobra para meu voo, fiquei tranquila e dali uns 20 minutos já estava com check-in feito, sentadinha no portão de embarque que mais parecia o de uma rodoviária pequena: confuso, cheio e sem informações visualmente disponíveis.

Com um atraso de mais de duas horas, voei para Boracay na ignorância de que seria uma hora de voo, mais umas duas horinhas de transfer - que já havia sido confirmado e reconfirmado pelo hotel.

Desembarquei e não vi ninguém parecido com alguém que pudesse ser do transfer/hotel. Saí, voltei. Olhei profundamente para algumas pessoas para ver se levantavam uma plaquinha com "Ms. Teles" e nada. Àquela altura já estava há quase 40 horas viajando e só precisava dormir - nem tinha consciência mais sobre fome.

Desacreditada de que poderiam ter desistido por causa do atraso das duas horas, resolvi perguntar e deu certo: uma mulher me indicou um lugar de informação sobre transfers e logo consegui a confirmação do meu: "Sai aqui do aeroporto e segue reto. Seu ônibus é o de número 5 - e me entregou um papel. Na sequência - e me entregou outros dois papéis - você tem seu voucher para o barco, e depois taxi". Nesta hora eu me assustei: "barco?".
"Sim, senhora. Barco" - ela respondeu impaciente. 

Não entendi nada, e segui. Demoramos 30 minutos para sair do aeroporto no tal ônibus e ali caiu minha primeira ficha de que teria que ter esse espírito de esperar sem nem saber o que ou por quem, mas esperar.

Uma hora e meia depois de seguir por estradas estreitíssimas e sinuosas, chegamos a uma espécie de porto. Paguei uma taxa local de "preservação ambiental" e entrei no tal barco, com outras tantas pessoas, já diferentes das que estavam no ônibus.

No auge da madrugada, nem me lembro se passava das duas da manhã, me rendi ao cansaço e desisti de contar o tempo ou adivinhar a próxima etapa: eu realmente só queria chegar.

Deste momento até o hotel - ah!, depois do barco não era táxi, era uma van em que também tive que esperar outros passageiros - foram mais uns 30 minutos, mais ou menos. 

Quando enfim cheguei ao hotel, o recepcionista não falava um "a" de inglês, o que achei bem absurdo. Pedi a senha do wi-fi, ele custou a entender e só não desisti porque já havia passado quase cinco horas da minha partida de Manila e meu desespero era imaginar a preocupação da minha mãe.

Eu estava a ponto de desistir do wi-fi e claramente irritada pela primeira vez, mas entre a recepção e o meu quarto o sinal pegou e pude balbuciar, numa mensagem de voz, que estava tudo bem.

Segundos depois, pouco me lembro da entrada no quarto e, finalmente, dormi.

*Parte 1 de algumas - #calmaEacompanhe.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Qual o preço de um gesto de honestidade?

No último domingo, após almoçar com amigos, dei uma parada no shopping para resolver "coisas de casa", rapidamente. Depois, entrei no ônibus, paguei a passagem em dinheiro, guardei o troco em moedas e, vendo que meu celular - um Iphone - estava sem bateria, coloquei tudo junto e misturado, dentro de uma das sacolas de supermercado.
Para minha surpresa, ao chegar em casa, tirei tudo da sacola, menos o celular. 

Achei que estava louca, já que não estava bêbada. Desci. Olhei no porteiro, no elevador, nas escadas, debaixo da cama; até que pensei: Ou caiu no chão e eu não ouvi (sabe-se-lá-como-não) ou alguém me furtou no ônibus e eu nem senti.

Pois bem.

Fiquei meio chateada, mas mais com minha desatenção do que com o fato em si. Meu ponto era "o que aconteceu e eu não vi?!".
Anfam. Fui para o clássico bloqueia-celular-bloqueia-chip-avisa-as-pessoas-coloca-outro-número-no-find-my-Iphone (Thanks, Apple!); e fiz isso meio que sem muita pretensão, embora, verdadeiramente, achava que tinha perdido e não sido furtada.

No dia seguinte de manhã, recebo um Whatsapp:
- Oiee gracinha bom diaa Vc dona iphone?

Pensei: Não é possível? Será? Respondo? E se ele me sequestrar? E se hackear todas as informações? E se me chantagear e descobrir onde eu moro? JURO para vocês: nenhum pensamento positivo passou pela minha cabeça nos primeiros 30 segundos.


Respondi:- Oiee! Siiim! =)


Ele:
- Sou Rodrigo prazer tava dando aula de dança ontem q achei no meio da av esqueci nome da av kkk



Eu:
- Rebouças?

Ele:
- Isso deve ser essa mesmo deu sorte em porq passei por ele fiquei olhando no chão os carros passando do lado dele kkkk


Depois de trocas de risadas e eu sem saber como perguntar para ele se ele me devolveria, enfim, tomei coragem e a resposta veio:
- Entrego não trazendo polícia falar q eu te roubei kkkk ta firmeza

Voltei 10 passos e pensei: "Não quero meu celular mais não". E, librianamente, negociava indecisa: "vamos encontrar?". Não vamos. "Quero meu celular?". Quero. "Correndo riscos?" Mas por que ele se daria o trabalho de me contatar? "Será que ele acessou meus dados ou viu que não revenderia por estar bloqueado ou..."; enfim. Decidi acreditar e ainda assim não foi fácil.

Ainda estávamos na 2afeira. Marcamos de nos encontrar na 3afeira, em uma estação de metrô. Poucas horas antes, ele proativamente desmarcou e sugeriu que uma amiga me entregasse no shopping perto da minha casa. Ele então se despediu com um "ok vou passa seu contato pro meu encarregado ele te passa tudo certinho... de qual que forma foi meu último contato com vc até... mais...".

Estaca zero.
Eu e minha positividade pensamos: "É, não vai rolar. 'Encarregado'? Último contato?".

Na 4afeira o tal encarregado entrou em contato comigo, se apresentou como esposo-da-tal-amiga-que-trabalha-no-tal-shopping. Depois, a tal esposa me escreveu, combinando o encontro na praça de alimentação. Neste momento, desisti. Ali eu tive certeza absoluta que estavam rindo da minha cara, fazendo graça e/ou que iam devolver sob algum tipo de "cobrança".


Por outro lado, eu não me conformava em me conformar. Hoje, 5afeira, saí de um cliente, mandei mensagem para a esposa e disse: "Olá! Estou no shopping. Posso pegar meu celular com você?".
E ela veio, com ele assim:


                                              
Limpo e protegido. Funcionando.
Fiquei muito feliz. Muito!: Uma mistura de crença no brasileiro, no futuro, nas pessoas boas escondidas e, eu, meio ressabiada com meu preconceito, meu pessimismo e minha desconfiança.

Foi um tapa na cara com a força de um atropelamento. Impacto suficientemente grande para (re) pensar e (re)agir. 

Aliás, como diria Drummond, "a confiança é ato de fé e dispensa raciocínio". #Acreditemos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Transbordou.


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser 
um crocodilo porque amo os grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muito vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros 
como o sofrimento dos homens".
Guimarães Rosa


A vida é um sopro.
Um suspiro.
Um milésimo de segundo.

"Para morrer, basta estar vivo".

Quantas dessas não ouvimos ou não conhecemos?
Mas quantas dessas só atribuímos quando é com a gente.

A morte é como o câncer. A gente só tem dimensão do que é quando acontece perto da'gente.

Diariamente vemos, lemos, ouvimos notícias de civis mortos em trocas de tiros.
Idosos que esperaram demais em hospitais para atendimento.
Crianças desnutridas: Mesmo que não necessariamente infinita, é uma lista incontável.

Sentimos dor, sofremos, nos perguntamos "por que, mundo?", mas quando é próximo parece que é uma dor diferente, não? Parece que "você acha que sabe, mas não sabe; porque é minha a dor".

O falecimento do artista Domingos Montagner* na última quinta-feira me deixou meio assim. Como dizem, "ele não era meu parente, mas era próximo".  Aliás, ele não, o recado que ele vinha trazendo através do personagem dele na novela.

Ainda não sei exatamente o porquê e o como da conexão. Se por minha origem paterna ser dali; se pela questão dos índios que a vida inteira nos dão o recado de quem é que manda na vida - e na morte; se pela nossa fragilidade dura do tal "para morrer, basta estar vivo" - e se é só isso mesmo; se pelo desconhecido, do não controle, do possível, mesmo que improvável; do improvável que não tão impossibilitado assim; do que não sabemos: Se pela minha formação ocidental-católica.

Aliás, achei que tivesse aprendido mesmo na Libia que a morte é a beleza de um novo encontro, não a tristeza do desencontro - que nada!: Chorei como se fosse próximo. Refleti como se fosse abdicar de tudo para sair por aí, preenchendo a faltaAprendi nada. Resignifiquei, na prática, muito pouco. Porque "na prática, a teoria é outra".

Por outro lado, neste caso Montagner, me parece algo maior, pr'além do "céu e terra" que 
não dará conta a filosofia, nem a medicina. Cada um tira para si o que quiser desse acontecimento, que para muitos não foi "nada" e para outros foi "tudo". Para tantos mais, uma projeção do "e se fosse comigo?".

Para mim é também uma questão da "vida imitar a arte" - e não o contrário -  e, sobretudo, do Rio. Da natureza-viva. Essa, que quando morrer, matará 'inda mais: que possamos, enquanto Brasil, enquanto há tempo, cuidar do objeto-sujeito da passagem dele; o Rio São Francisco.


*Para quem não sabe do que se trata:
http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2016/09/domingos-montagner-morre-aos-54-anos.html

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A falta de sentir falta: estamos cheios demais?

Estamos em Setembro. Aliás, já quase na metade de Setembro. E qual é a razão por contar tanto o tempo?
A cada instante que reconheço sentir que o tempo vai rápido demais, parece que eu é que estou lenta para a velocidade das coisas: sempre há falta. 

Falto com telefonemas à família; falto com aniversários de amigos (perto ou longe); falto em estudar, ler um livro, uma revista, um artigo. Falto na academia, na matrícula de um curso que já vi quanto custa, mas só não fui lá pagar - quanto mais frequentar?. Falto, mesmo que eu queira, que eu tente estar. Mas arrisco: não falto ao trabalho.

Há momentos, principalmente Domingo, que resolvo olhar meu celular e, ao invés de responder às mensagens às quais faltei atenção ou simples resposta ao longo da semana, travo. Na falta faltante, decido me faltar; quase me ausentar de mim mesma, desse tempo, dessas coisas. Falto à ação e durmo. Descanso. Faço nada.

Nessa organização para não fazer nada, e isso é um refúgio para mim, causo uma estranheza para o outro; enquanto, para mim, estranhas são as pessoas em restaurantes, bares (e "até" cinema/teatro) ficarem incessantemente ao celular. Eu entendo: "aproxima quem está longe, afasta quem está perto". Eu entendo: "é uma ferramenta, a pessoa quem deve saber usar".

Me preocupa a leitura das pessoas sobre essas coisas todas: Me preocupa estar na praia, em shows, em parques, museus, cafés, ou em qualquer tipo de vivência experimental e ver que as pessoas, muitas vezes, não estão vivendo e nem experimentando, mas "postando", contando "para o outro" - o mesmo outro que está vendo e não necessariamente inteiro naquilo que vê e, sequer, vive ou é.

Usando quase minimamente o celular, ainda assim, me falta muita coisa! Tentei me colocar em dia durante as férias; fiz questão de escolher um lugar isolado, "desconectado", e ainda assim, faltou. Faltou tempo para mais dessas paradas.

Diariamente falta tempo para sentir menos "ah, queria mais tempo" para fazer tanta coisa e tempo para não fazer nada. Tempo e qualidade de tempo para estar inteira nas relações. Para viajar e aproximar o longe a ser perto. Tempo para ser, não estando. Só sendo. 

Mas, arrisco: não falto ao trabalho. E talvez você também não. 


Pausemos: antes que o tempo nos pare: "longas caminhas necessitam boas paradas".
*Não adesão à nova regra gramatical.