sábado, 24 de abril de 2010

Olha, será que ela é moça?*

Tempo [Do lat. tempus, pela f. tempos, que foi sentida como um pl. port. de que se tiraria um singular]: A sucessão dos anos, dos dias, das horas, etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro; Momento ou ocasião apropriada (ou disponível) para que uma coisa se realize; Época; As condições meteorológicas; O período em que se vive; época, século (...).
Dicionário Aurélio

Voltamos à época em que o Sol aparece cedo e vai embora mais tarde, mas não me remete como uma repetição de dias já vividos, no ano passado.

O ambiente está diferente, as pessoas mudaram, há gente nova e recém-chegada, há indefinição de tempo e às vezes de espaço.
A rotina vai-e-volta, mas com aspectos diferentes. O trabalho, no dia-a-dia, já não é mais o mesmo, mas continua aumentando e se tornando intenso; e nem a academia pede os mesmos movimentos.

Entre o despertar e o adormecer do Sol, as horas têm passado como se fosse em segundos e os minutos se tornam um apanhado mínimo da fração deles.
Só percebo a rapidez destas passagens, quando a TV anuncia o Programa do Faustão ou o Fantástico que, sendo apresentados semanalmente, despertam a pergunta em mim: "Outro? E, de novo?".

Não procuro entender a sensação das 24 horas terem se tornado metade do todo, um terço ou o que seja, mas neste frenesi, sem muito tempo para olhar para mim mesma no espelho, um dia, observando meu reflexo no vidro da academia, enquanto aproveitava a oportunidade da válvula de escape, me vi grisalha - e não é exagero: acredite!

Os poucos fios que nasciam brancos a partir da minha mudança para São Paulo agora são muitos, se multiplicaram e parece que vários deles, negros, estão se tornando branco. Portanto, não há só aqueles que nascem, mas os que se tornam. Levei um susto e fui compartilhar a emoção, quando um dos meus receptores disse "Ah sim, você tem vários; olha mais aqui. E aqui em cima, vire para este lado. Ih, dá para ver de longe já. Brilha! Já tinha visto outras vezes": Ai, que alegria!

Cientificamente, sei que os cabelos brancos surgem como uma consequência do processo natural de envelhecimento, em que as células pigmentares que dão tons aos fios param de produzir melanina (pigmento do "folículo capilar") - que chique!

Enfim, não vou pintar. Pode ser que vire charme, com o passar do tempo - vai saber. Tempo este que tem sido compartilhado por todos e, de novo, não sou só eu.

Uma das Líbias que trabalha comigo veio me apontar alguns fios também e, em tom de brincadeira, disse a ela "Sim, estou velha". E ela, na mesma graça, respondeu "Eu também tenho. Use véu e ninguém vai saber".

Que véu que nada, me desculpe, quero que eles façam parte das contagens dos anos, como uma boa referência da experiência e prática vivida. Da constatação da intensidade do tempo.

Curiosamente, neste intervalo todo, fui agraciada por dois e-mails oportunos. Um era questionador e o outro poderia ser, sem saber, a parte reflexiva que responderia a boa parte das perguntas levantadas.

O anônimo-atrevido escreveu: "Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos tem?".
O Mario de Andrade, sábio e lúcido, ponderou: "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro".

Eu diria que eu sou o que eu tenho, dentro da capacidade de ser, que é verdadeiramente incontável, imensurável, atemporal e incolor; afinal, "não é pelo que se vê, e sim pelo que não se vê".

sábado, 10 de abril de 2010

Pelo Tempo que Durar

Leia ouvindo, Podes Crer, Cidade Negra.

Ela pediu para que eu relesse a aplicação dela para o Mestrado nos Estados Unidos. Me inspirei. Uma outra disse que iria ao Brasil, ver os pais, e que seria bom conversarmos naquele café.

O pai de uma delas segue mal no hospital e, compartilhando a dor, disse que rezaria por todos. Depois, uma outra remetente me disse que seu avô havia ido. Todas nós nos acalentamos e no fim deixamos uma mensagem positiva e terminamos por rir.

Um amigo teve um imprevisto e voltou voando - literalmente - para o Brasil, depois de um susto que a mãe levou.

Um outro e-mail chegou trazendo a mim a mensagem de que um deles largara todo o conforto da "vida fácil", o salário certo no fim do mês, para abrir uma ONG e pagar o preço por ser feliz.

Trabalhando na China, estudando nos Estados Unidos, sendo reconhecido na Costa Rica, desafiando-se no Chile ou Colômbia, enfrentando as barreiras culturais mesmo falando a mesma língua portuguesa, terminando namoro, começando outro, abandonando o estudo tradicional, abandonando as viagens corriqueiras, mudando de cidade, casando e fazendo filhos; se envolvendo com causas sociais, enriquecendo-se dentro da causa privada, estudando para Concurso Público, tentando mudar o Governo; chorando pelo time de futebol que perdeu e ganhou, de novo; na dúvida se compra um carro ou faz uma pós; se termina o novo namoro ou se vai para a praia; se faz processo de trainee ou conhece a Austrália; se chora por alguém ou se ri por vários outros; se lembra da novela com pizza ou da ressaca da gandaia.

Saudade.

Tudo isso é sentimento compartilhado.

Videos, poemas e mensagens que dizem muito mais do que a conversa no bar, talvez.

O show que ela foi e eu ouvi dizer. A viagem que fizeram e faltaram algumas na foto. Aquela que optou pelo caminho inverso e chegou mesmo assim. Aquela que tem aparecido em Revistas por bons princípios e que tem colhido o resultado das sementes plantadas na aula de ciências, lá na 6a. série.

Ela que vai para a França, receber um prêmio.
Ele que virou gente-grande.
Ela que virou mulher.
Ele que me pediu recomendação para sair da Bélgica e voltar para a Suíça.
Ela que abriu uma loja.
Eles que abriram uma boate.
Eles que casaram e não fui. Eles que vão se casar e irei.

A nós todos, pela amizade e pelas piadas. Talvez o ser "por e-mail" diminua para alguns e aumente para outros. O que importa é contar. Contar comigo para contar. Contar contigo para te contar.

Foi no Sri Lanka que ouvi do Gajo Português: escute a todos, mas só faça aquilo que ouvir dos teus pais e teus amigos. Teus verdadeiros amigos. A eles cabe considerar. Contando com eles, tens com quem contar.

Estou repensando sobre os barcos, porque acho que estou vendo do porto e, para toda costa, há aqueles que para uns partem e para outros chegam: "Podes crer, eu tô falando de amizade".

sábado, 3 de abril de 2010

E os sapatos que não me cabem?

Outro [1. Diverso do primeiro; diferente de pessoa ou coisa especificada; 2. Diferente, diverso,distante (...); 4. O resto; o restante (...)].
Aurelio

Não sei se é do ser humano, mas acho que é de várias pessoas, inclusive de mim mesma, achar que estamos em situações únicas e que, algumas vezes, só nos damos conta que não estamos tão mal ou tão bem assim, quando criamos oportunidade para entender uma outra pessoa e conhecer uma situação diferente.

Acho que sempre pensei assim, ou pelo menos sempre tentei. "Assim" que eu digo é sob a perspectiva do outro. Não que algumas coisas se justifiquem, mas acho que quando você tem a visão do lado de lá - talvez isso seja um ponto curioso que tenha me feito estudar Jornalismo - você critica menos, ou critica fundamentado no que falta ou excede; no equilíbrio do que é bom e ruim.

É difícil a afirmação, por isso, principalmente no dia-a-dia, acabamos por nos colocar como sendo únicos e injustiçados - ou felizardos - de um modo geral, sem necessariamente olhar para quaisquer lados: - teríamos nos tornado individualistas?

Reflexões (vagas) a parte, tenho alguns (bons) exemplos que me acalmam, me confortam, me fortalecem, me inspiram e me motivam, por me mostrarem de que não, não sou só eu e meu umbigo:

A Conina está na Polônia, trabalhando para uma senhora empresa de Petróleo, depois de ter trabalhado com cultura, na Índia. O Marcelinho está na Costa Rica, trabalhando para uma monstruosa indústria farmacêutica. A Milinha esteve em Paris, trabalhando para uma recauchutada empresa de telecomunicação. Lorão ainda está na cidade Luz, fazendo mestrado; redescubrindo-se na vida de estudante europeu, ao contrário da Amanda, que após terminar um semestre em Direito Internacional, voltou para casa. A Lora está em um Banco Holandês, perto da Anna, na Bélgica. Cacá, na Suíça, em um Banco de origem daquele país, mas em cidade diferente da Beta, que antes de desembarcar no País do Chocolate para uma missão pela ONU, esteve em uma árdua tarefa quando em um trabalho volutário, no Quênia. Sister está na Itália, para uma empresa de telefonia (móvel). Leo, na Romênia. Chefitcho, na Suécia, mais ao Sul, de onde está o Kabelo. A fofa-da-Aline está no tremelique do Chile e a Ju, comendo pastéis de Belém, naquele que nos colonizou. Cissinha já-já volta da Hungria, mas não sei se o Henrique volta de lá. O Delfa, no México, fica ainda uns três anos, eu acho. Meu irmão está no sertão Baiano, para onde a Lubi vai em breve. A Duda se mudou para São Paulo, por onde a Marcela vive há anos, um pouco depois que nós saímos do colégio. A Fernanda foi há pouco mais do que um/dois anos - já perdi a noção do tempo!

Neste discurso vai a vida, etc e tal. Mas e aí?

E aí que todos eles passaram, passam ou vão passar pela experiência, como se brincassem na montanha-russa:

Começa devagar, tem uma descida brusca que parece desesperadora, mas impulsiona para cima, porque se pensar bem, há um leve prazer naquele caos e, depois, volta a ficar devagar, pela subida que se repete. Raramente há momentos lineares. Cada um com seu sapato teve que entrar no carrinho para ver o nível da emoção. Umas mais íngrimes, outras nem tanto. Outras com quedas de 90 graus, praticamente queda livre. Algumas bem motorizadas e modernas, acolchoadas. Outras velhas, nada confortáveis, mas que proporcionam diversão e receio que, no fim, fazem seu papel de entregar a experiência prometida.

Cada um com seu sapato, ali. Cada um com seu umbigo. E é aí que eu entro com meu pensamento e agradecimento de que eu não sou a única a gostar deste tipo de sapato: há consumidores com uma linha de escolha parecida com a minha, embora não igual. E, se é parecida, eu posso pensar no porquê da escolha daquele produto que não necessariamente é melhor ou pior; é simplesmente o resultado de uma decisão.

Ah, será que gostaria mesmo de experimentar o calçado deles? Diferente, mas compreensível.

Enfim, entendendo que não importa onde, nem como, mas todos nós, muito provavelmente, sentiremos falta e colocaremos questionamento nas mesmas coisas e, no final, vamos às mesmas lojas em busca dos mesmos sapatos. Uns mais coloridos, outros maiores, uns descobertos. Mas nenhum desconfortável o bastante que te faça optar por andar descalço - não enquanto se está na montanha-russa:

"(...)Pare e pense no que já se viu
Pense e sinta o que já se fez
O mundo visto de uma janela
Pelos olhos de uma criança

Você sabe
Que o sentimento não trai
Um bom sentimento não trai(...)".
O Erê, Cidade Negra

*Não adesão à nova regra gramatical.