*escrito tal como se pronunciaria.
- Oi Moço, tudo bem?
(ele sorri, em silêncio).
- Bom, me vê uma Baden-Vais, por favor?
- Acho que não tem.
- Você acha ou tem certeza?
- Eu acho.
- E tem como você verificar, por favor?.
- Tem sim!
(e se mantém em pé, com o bloco de notas em mãos).
- Ok, pode ir lá então.
- Algo mais?
- Por enquanto não, depende do que você me trouxer como resposta.
- Hm?
- Nada mais, obrigada.
(5 minutos depois).
- Senhora?!, só tem long neck, pode ser?
- Baden long neck?
- Isso!
- Ué, estranho. Não conhecia.
(...)
- Legal, pode trazer então. Mas traz duas, porque ia pedir 1 Baden e dois copos, mas sendo long neck...
- Ok. Algo mais?
- Moço, desculpa. Mas você tem certeza?
- Tenho, senhora!
- A Bãdi de 600 acabou.
- Bãdi?
- Isso. A Bãdi Uais.
- Ahhhh (risos infinitos!). Não moço! Eu não pedi a Bud-Weiser. Pedi a Baden-Weiss. Essa aqui ó (mostro o cardápio e aponto). Código 107.
- Ahhhh tá, é que é a mesma coisa né?
(risos abdominais).
- Não moço, não é.
- Vou lá ver se tem tá?
- (rindo) Tá.
(outros 5 minutos, bloquinho de notas na mão).
- Oi senhora! Não tem essa também não. Nem a de 600.
(...).
"Os barcos estão seguros se permanecem nos portos. Mas não foram feitos para isso". Fernando Pessoa
terça-feira, 24 de junho de 2014
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Ode horaciana à vida
Tudo parece ter importância e peso diferente
O vento já não é mais vento
É o carinho no rosto
A poeira da rua
O prenúncio do chá quente.
O tempo dura para tudo e para as pequenas coisas
Para as coisas pequenas
Pára o relógio das pessoas grandes
Diz quem é mesmo o dono de quem
E ressoa naquele vento o Amém.
Tudo parece pouco
Tudo pesa como muito
Cada pouco vem como um louco
A cada apito daquele trem,
É mais um que invém.
O vento é um carinho no rosto
A vida inclui a morte
A vida é viver
Cada segundo pelo seu rosto
Amor amado talvez nunca pôsto.
O vento já não é mais vento
É o carinho no rosto
A poeira da rua
O prenúncio do chá quente.
O tempo dura para tudo e para as pequenas coisas
Para as coisas pequenas
Pára o relógio das pessoas grandes
Diz quem é mesmo o dono de quem
E ressoa naquele vento o Amém.
Tudo parece pouco
Tudo pesa como muito
Cada pouco vem como um louco
A cada apito daquele trem,
É mais um que invém.
O vento é um carinho no rosto
A vida inclui a morte
A vida é viver
Cada segundo pelo seu rosto
Amor amado talvez nunca pôsto.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
A (tal da) objetividade - Parte II
Meninas no bar:
[três já estão sentadas, tomando uma cerveja]: Gente, esse casamento da Belinha vai ser T-O-P!
[todas]: Uhuuuul.
[ela]: Vocês viram a prévia do vestido?
[uma]: Mentiraaaa. Por que você viu??
[ela]: Sou madrinha, né bem?!
[outra]: Falando em ser madrinha, o que vocês vão dar de presente?
[ela]: Ah eu não sei, mas vou dar à parte tá? Nada de dividir.
[uma]: Hm, diferente!
[uma]: Hm, diferente!
[ela]: Não, gente. Meus pais vão, o Mário vai, outra pegada, né?
[uma]: Tá. E o que mais você sabe?
[ela]: Champagne, banda, DJ, uma mesa mará de frios (...).
[outra]: Ai meu Deus! E vestido pra esse chiquetê?
[uma outra]: Cabelo, maquiagem (...).
[Ela]: E não se esqueçam do chá-bar e da despedida, hein? Temos que fazer algo muito divertido!
[outra]: Ahimmm. To meio mal das pernas, dá pra pular alguma dessas coisas?
[uma]: Ah... Despedida podemos fazer em algum lugar que não pague entrada, por exemplo.
[Ela]: Ah, gente. Não me venham com economia porca!
Silêncio aos goles da cerveja.
[uma outra]: O chá-bar vai todo mundo? Como é que é?
[outra]: Ah gente, pára. Nem é a gente que vai casar!
[Ela]: Deixa comigo. To suuuuuper próxima à Belinha e o Mário também ao Lipe. Não se preocupem, girls.
[Uma]: Verdade! O importante é aproveitarmos ao máximo. Um brinde à Belinhaaaaaa.
[Todas]: Uhuuuuu!
[Todas]: Uhuuuuu!
Meninos no bar:
[três já sentados, tomando uma cerveja]:
[ele]: Hein, galera, precisamos fazer algo pra despedida do Lipe. Strip?
Riem e bebem.
[um]: Mas qual vai ser? Mulherio ou nem?
[ele]: Ah sei lá cara. Campeonato de poker com uns "brindes" no final?
[todos]: Boaaaaa!
[Ele]: Não, sério galera. Ele 'tá stressadaço com tanta coisa. Esses dias tava puto de olhar orçamento daqueles papeizinhos que vão debaixo dos docinhos, sabem?
[outro]: ha-ha. Zuou que se cobra pra'quela merda?
[Ele]: E caro, velho! Parece que teve um que disse que cada papelzinho era oito reais!
[Um outro]: Tá loko. Só imbecil pra pagar. Galera vai estar trêbada, não vai nem ver papel e se alguém perceber, amassa e joga fora.
Silêncio. Bebem.
[Ele]. É meu irmão, tá achando que casar é fácil?
[Outro]: Fácil eu não sei, mas que é caro, eu já percebi.
[Ele]: Que se f*da também. Não é muito um assunto nosso. Pensemos nas bebidas.
[Um]: De fato, ao que interessa: Sabe se vai ter whisky?
[Ele]: Que se f*da também. Não é muito um assunto nosso. Pensemos nas bebidas.
[Um]: De fato, ao que interessa: Sabe se vai ter whisky?
quarta-feira, 9 de abril de 2014
A (tal da) objetividade - Parte I
Meninas no bar:
[três já estão sentadas, tomando uma cerveja, quando uma chega, esbaforida, jogando a chave do carro na mesa, cumprimentando sem perceber, e enfim, desabafa]: Gente! O pai da Aninha morreu!
[todas]: Quêêêêê? Como assim?? Calma, explica, tudo, falaaaa.
[ela]: Assim, gente! Também não sei direito. Ele tava mal.
[uma]: Mal de quê?
[ela]: Então. Segunda-feira ele estava mal.
[outra]: Mas sentindo o quê exatamente?
[ela]: Então, não sei exatamente o que ele sentia. Sei que na Segunda-feira ele foi no Hospital, o médico falou que era um mal-estar e medicou. Ele foi pra casa.
[uma outra]: Como assim, "foi pra casa?". Que médico irresponsável! Eu processava. Que absurdo!
[ela]: Não, então gente, calma (e finalmente deu uma golada na cerveja). Aí na quarta-feira ele voltou ao hospital, porque a medicação não tinha dado efeito.
[uma]: E aí??
[ela]: Aí que não diagnosticaram nada, falaram em cansaço, para ele desacelerar.
[outra]: Ai meu Deus! E não fizeram exame não? Isso é coraçãããão!
[uma outra]: Gente, isso é um absurdo, tô cho-ca-da!
[Ela]: Pois é gente. Aí ele não acordou bem. Mas parece que morreu antes de chegar ao hospital!
[outra]: Tô passada! Eu processava. Isso é um absurdo!
[uma]: Mas e a Aninha, como ela 'tá? Você falou com ela?
[Ela]: Ah, gente. Daquele jeito né? Só chora, não se conforma. Muita dor.
Silêncio aos goles da cerveja.
[outra]: Depois vou ligar pra ela. Que foda!
[uma outra]: É isso né? Pra morrer, basta estar vivo!
[As outras três]: Credo! Que horror!
[Ela]: Ai gente! Vamos parar de falar nisso? Tô um caco! Vamos falar de alguma coisa boa?
[Uma]: Vamoooos! Casamento da Belinhaaaaaaa.
Meninos no bar:
[três já sentados, tomando uma cerveja, quando chega um, já puxando a cadeira para sentar]:
[ele]: Falaê, galera! bom? Amigô, me vê um copo aqui por favor?
Ele se serve e brindam.
[um]: E aí? Que que rolou que você não foi na pelada hoje?
[ele]: Putz, cara, pois é. O pai da Aninha morreu, fiquei dando uma força pra ela.
[todos]: Porra, que foda hein?
[Ele]: Muito!
[outro]: Mas morreu do quê?
[Ele]: Cara, sabe que não sei. Não entendi direito. Parece que passou mal e pá. Apagou.
[Um outro]: Ahhh, deve ter sido o coração. Pra morrer assim de repente, só pode ter sido de coração.
Silêncio. Bebem.
[Ele]. Mas então porra! Vão falar quem ganhou hoje ou como é que é?
Riem e pedem mais uma.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Carta aberta à TAM
"Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas". Abraham Lincoln
Eu estava bem feliz no Domingo 23 de Março, porque depois de muito tempo fazendo bate-voltas de ônibus até BH, por causa dos preços abusivos das passagens aéreas, mesmo tentando comprar com antecedência, naquele fim de semana voltaria tranquila, dormiria cedo e na 2a.feira voltaria equilibradamente aos exercícios matinais, após lindos momentos c'as amigas: mas que nada!
Meu vôo estava previsto para sair de Confins às 20:38 e como havia interrupções na pista a caminho do aeroporto, por causa da (imagina) Copa, cheguei correndo e quando finalmente passei pelo raio-X e conferi o painel de informações, lá estava: "TAM JJ3321 CNF - CGH atrasado". Sem saber a previsão do portão, andei por ali. Bebi uma água. Sentei na cadeira e abri meu livro. Os minutos passaram, levantei, e fui até outro painel e, que alegria, havia novidades. Agora o "atrasado" estava "previsão 21:45 - portão 8". Senti dúvida; fiquei sem saber se deveria estar feliz por haver uma previsão ou se desanimada por não chegar tão cedo assim em casa.
Minha reflexão foi interrompida por um grito:
- Isso aqui é palhaçada, né? Só pode ser piada!
[Atendente]: Não senhora, não estamos de brincadeira. Essa é a informação que nós temos.
["Senhora" que na verdade é uma moça de menos de 40 anos, bonita, com uma criança de colo, no colo. Aos berros!]: Eu não quero saber! Então quer dizer que se o avião quebra, e aí?**
A partir daí o atraso ficou super interessante e, então, TAM, eu tenho algo para te dizer: Sinto muito por aquela mulher e por todos os outros que vieram embalados pela fúria dela e se uniram em prol do desrespeito. Eu realmente entendo ambos os lados, inclusive estava do mesmo lado do balcão que ela, mas o meu entendimento é: Gritar não resolve e cuspir na cara do atendente também não - a não ser que fosse uma espécie de pó-de-pirlimpimpim.
O que me assustou na cena, que levou exatamente três horas, até que enfim embarcássemos, foram as palavras que ela usava, liderando 90% dos passageiros a quase "quebrar tudo", como se o avião então pousasse por isso, como se resolvesse:
[Ela]: Meu filho (para o atendente, não para a menininha no colo dela), eu paguei [gritando] mil reais por essa passagem. M-i-l-R-E-A-I-S*, você sabe o que significa isso? Eu vou processar a TAM e você. Você mente! Tem 1hora que você falou que o avião (...).
Eu sentei. Observava. Tive vontade de convidá-la para um café. Depois tive vontade de abraçar o garoto - era um garoto no balcão de vocês, Tam. Ele tremia. Chamou o supervisor. Depois chamou mais dois colegas. Em duas horas de agonia eram quatro da TAM contra uma mulher e meia dúzia de baderneiros que falavam, como figurantes em novela, "isso aí! É uma absurdo. Se vira! Foda-se o seu! Seu bosta (...)".
TAM, eu passei todo aquele tempo, a duração do vôo, o caminho do taxi de Guarulhos até minha casa (vou pedir reembolso a vocês, ok? Afinal, comprei o meu vôo para CGH [Congonhas]), alguns bons minutos tentando me acalmar até dormir, pensando nas pessoas que trabalham por você, para vocês e que mantiveram a postura através de mantras que ecoaram na minha cabeça até agora, três dias depois, em que aquela energia (ruim) ainda grita na minha cabeça: "Não existe estrutura". "Operamos no limite". "Não há o que fazer, senhora". "Isso é tudo o que eu sei, Senhora".
Isto posto, decidi compartilhar com vocês que por pior que tenha sido ficar três horas esperando e que por isso eu tenha gastado mais dinheiro (taxi), cansaço e não ter começado "bem" a 2a.feira, já que fui dormir mais de 2h da manhã, aquele garoto no balcão de vocês, para mim, se esforçou (e diria que conseguiu) o que vocês pregam na Política de Gestão de Pessoas: "(...) Na verdade, a surpresa dos passageiros com a qualidade do atendimento é apenas o reflexo da união entre os funcionários da empresa, os quais, conscientizados, sabem que na busca do ótimo não se faz o bom. Temos sim, feito o bom, o possível e o necessário diariamente. Longe de abandonarmos a idéia do ótimo, estamos nos concentrando naquilo que, sob nosso comando, podemos e devemos perseguir para provocar a satisfação dos usuários."
Certamente os black-blocks daquele dia não vão concordar comigo e vão processá-la, TAM. Mas ao me distanciar daquilo tudo eu realmente vi quatro pessoas exercitando o espírito de servir para fazer o que tinha que ser feito; infelizmente, não poderiam se transformar numa aeronave; nem interferir nas decisões da Anac ou Infraero. Certamente, também, nada disso aqui resolve, eu acho. E embora isso não seja de fato tudo o que queria te dizer, TAM, por favor, não abandone a ideia do ótimo, mesmo que muitas pessoas não mereçam isso.
Atenciosamente,
*Eu não paguei isso tudo. Aliás, jamais pagaria!
**Não foi esse o caso. O trecho era Belém-Brasília-Confins-SP/Congonhas. Mas o aeroporto de Belém ficou fechado por duas horas por questões meteorológicas e os atrasos seguiram em cadeia. O questionamento é válido: se fosse uma pane mecânica os voos então seriam cancelados, já que não há possibilidades de reposição. O que não vale é quase bater, né?
**Não foi esse o caso. O trecho era Belém-Brasília-Confins-SP/Congonhas. Mas o aeroporto de Belém ficou fechado por duas horas por questões meteorológicas e os atrasos seguiram em cadeia. O questionamento é válido: se fosse uma pane mecânica os voos então seriam cancelados, já que não há possibilidades de reposição. O que não vale é quase bater, né?
Assinar:
Postagens (Atom)
*Não adesão à nova regra gramatical.