sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Um dia daqueles

Reunião.: [1 Ação ou efeito de reunir ou reunir-se. 2 Conjunto de pessoas que se agrupam para algum fim (...)].
Michaelis.
Há vários encarregados brasileiros que não falam inglês. Há ainda engenheiros e pessoas em níveis mais estratégicos que também não falam outro idioma senão o nativo - seja turco, português, mexicano, indiano, equatoriano, etc.

E dentre vários outros fatores que levam à desmotivação, não conseguir se comunicar pesa fatorialmente no efeito dessas causas. Podem me propor a implementação de todas as ferramentas de comunicação interna que possa amenizar esta ocorrência, provavelmente aqui não vai funcionar: tudo é fora da curva demais, diferente demais, inesperado demais para seguir-se bem com os padrões estudados em livros e vividos em uma organização dinâmica "normal".

Assim, meu encargo esta semana era fazer reuniões em (boas) escolas de inglês para conhecer material e metodologia que possam atender à expectativa dessas pessoas que não só querem, mas precisam se comunicar - de modo efetivo e rápido.

O senhor Ahmed (lê-se Arrrrméd) foi comigo. É um típico líbio cinqüentão, estatura mediana, barriguinha - não de chopp, haha, deve ser de pão - óculos anos 20 - estilo RayBan, mas não deve ser também - e um discreto mas ao mesmo tempo notável bigode fino. Moreno, claro. Ele estava na van acompanhado do motorista - que não falava inglês. Nossa comunicação no trajeto de ida e volta foi "bom dia" e "Obrigada", em árabe. Ele tentou um "tudo bem" em português mas não foi muito feliz. Houve um embaraço.
Durante os trinta minutos que levamos para chegar à primeira escola de inglês, eles falavam árabe, portanto, coloquei uma música para ouvir e me isolei daquele ambiente nada convidadito: homens líbios falando árabe. E enquanto andávamos eu pensava porque o Sr. Ahmed havia ido comigo. Que tipo de contribuição ele faria. Afinal, qual era a função daquele cidadão que tinha se apresentado a mim, formalmente, dois dias atrás.

Chegamos à escola. Do lado de fora, uma casa com duas janelas do lado esquerdo e a porta de entrada do lado direito. Não havia jardim e não tinha a cor creme: era azul. Achei interessante ser diferente das que existem de praxe. Entramos e havia uma mulher mais velha de burca em uma mesa que deveria ser algo como a recepção. O Sr. Ahmed começou a falar em árabe, logo ela se levantou, abriu mais uma porta e nos levou a uma outra, mais à frente, à direita. Era estranho. A calefação da sala não estava ligada e comecei a sentir um frio emocional. Me distraí observando a mesa de reunião, a mesa de alguém que deveria ser um diretor e a estante - com poucos livros. Quando voltei à Terra, o Sr. Ahmed me perguntava em inglês se queria café. Aceitei, afinal, o frio estava interno a mim também.

Logo, chega um cidadão de dentes mal-tratados, careca, mais baixo que o Sr. Ahmed, com o cigarro deixado a ser queimado sem ser tragado, nas mãos. Vestia algo como um terno, mas não era um paletó e uma gravata ao qual estamos habituados. Ele olhou para mim, esticou a mão direita, retribui, disse meu nome e "prazer em conhecê-lo" em inglês. Ele voltou o olhar para o Sr. Ahmed que traduziu para mim dizendo "Ele é o Diretor Geral da Escola e não fala inglês".

"Hmmmmmmmmmmm" - Foi tudo o que consegui expressar com um sorriso corporativo. Na verdade, me deu vontade de rir. Que situação!

Nisso o Sr. Jalal (não me pergunte como se pronuncia), dono da escola, pega um pequeno aparelho branco, como um mouse sutil, e começa a apertar um tipo de campainha. Insistentemente. Acho que mais de cinco vezes. Um minuto depois chega a senhora de burca com os cafés, suco de laranja, cinzeiro e água. Ele estava nervoso, eu acho, com a "demora" da senhora em nos servir.

E por uma hora e quinze minutos a cena se repetia: cigarro entre os dedos da mão direita, raramente tragados, sendo queimados e com as cinzas caindo no tapete, a sala cada vez mais fria, o café horrivelmente saboroso - não arrisquei o suco, pois a laranja daqui é rosa. É, pois é. E a campainha sendo pressionada a cada instante, sem serventia alguma. A senhora chegava, olhava para o diretor e saía. Conversas em árabe. Traduções rápidas para mim. E, dentre essas ações, o Sr. Jalal se levanta e pega quatro álbuns de foto. Álbuns dos anos 1800. Amarelo. Naquele momento desisti de entender qualquer coisa. Em resumo, eram fotos da Marinha Egípcia em uma visita à Líbia, quando a tal escola fechou parceria para dar treinamentos e cursos em geral. Eu fingia olhar admirada, achando aquilo tudo muito interessante e entre os meus "hmmmm", "hmmmm", "hmmmm" - ahahahaha - o Sr. Ahmed disse para mim: "Bárbara, esta foto é um jantar que eles ofereceram para a marinha, em agradecimento à confiança. Foi realizado no melhor restaurante de Tripoli, algo como 110 dinares por pessoa, sem bebidas (=R$198,00) e como o Sr. Jalal simpatizou com você, disse que vai convidá-la e, não se preocupe com o preço, ele paga". Ó Deus. Falei algo como "Inshallah", ou seja, "Se Deus permitir'. E Deus que me livre de ter que aceitar um convite do Sr. Cigarrinho na Mão com Dentes Mal-Conservados! Imaginem só a (falta) de comunicação?

Quinze minutos depois o Sr. Ahmed se levantou e disse "vamos?".

E assim fomos. Ah, claro!, conheci a metodologia, os livros, a didática e etc, em uns cinco minutos de toda a estada vivida naquela experiência difícil de se compartilhar pela escrita ou pela palavra falada. Só estando lá mesmo. No fim das contas, gostei muito. Vi que as reuniões e o trato aqui não podem e não devem ser puramente comercial. Há que se falar da família, da vida, mostrar fotos que não dizem nada. O resultado dessa confiança compartilhada pode virar um negócio. O que acho realmente que não vai ser o caso.

No dia seguinte, em outra visita à outra escola, tive uma experiência comum: O diretor falava inglês, não fumava, focou 99% do tempo da reunião nas referências, nas empresas-clientes, no material utilizado, nas parcerias com escolas dos EUA, Suíça, Malta, Emirados Árabes e Reino Unido. Foi profissional, não líbio. Aliás, quase. Porque nos minutos finais contou que está mobiliando sua casa de 1300 metros quadrados e que provavelmente vai à China e à Dubai em busca de móveis mais sofisticados: 400 mil dólares para decorar o jardim e a área da piscina. Enfim, melhor do que ver fotos de Egípcios da Marinha.

E, definitivamente, eu preciso aprender árabe: Inshallah!

8 comentários:

Te disse...

huahuahu inshalah!!! meu q situação ein??
Babi, tenho q dizer, vc escreve mto bem!! Lendo seu post eu me vi lendo um livro!!! imaginei a cena todinha!!! mto bom mesmoooo =)))

Beijos

Eliabe disse...

Babiiiiiiii!

Concordo com Tezoca! Eu consegui sentir o sabor do café delícia e o asco do tiozinho de dentes podres!

Hahuauhauahua... Ainda bem que vc tava sozinha nessa reunião, imagine se fosse uma reunião do CC feita com Te e Mila?!

Bom...
Beijooo!

Talita Ferreira disse...

Vou ter que concordar com os dois porque tambem pensei o mesmo. Seu post parece um livro. Imaginei a cena, senti a fumaça no ambiente e tudo. Muito bom! :D Continue escrevendo Babi...quanto mais melhor! :D E estude arabe naquele site ;) Bjinhosss
PS. Que tal umas ferias da Libia...final de semana em Londres? topas? estarei la de 27-30 de março.. ;)

Marcelinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelinho disse...

Isso ai fofa, e imagina quantos destes tornarão a sua experiência ainda mais rica e intensa! Aproveite cada momento! Bjs

Vitor Garcia disse...

Eu juro que gostei mais da primeira escola.

Lilian disse...

Inshalah!! hauhaua
Acho o máximo vc poder usar essa palavra, ainda por cima ironicamente, num contexto normal do dia a dia (pelo "normal" leia-se: numa reunião em árabe com um tiozão que atende por Arrrméd e outro careca, dentes simpaticamente podres, bituca de cigarro por tudo e suco de laranja que é rosa). E tu ainda se impressiona com o loko que gasta 400 mil no jardim! hehehe
Bjo frô! :)

Ana Carolina disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk... Que situação, heim, prima... Passei mal de rir imaginando sua cara de interessada numa conversa tão desinteressante... kkkkkkkkkkk... haaaaaaaammmmmmmmmmmm... kkkkkkkkk... Fantástica experiência, só que tá me dando nojo do povo daí, com esses dentes azulados... Mas, ossos do ofício... Inshalah pra vc... Amoooooo!!!

*Não adesão à nova regra gramatical.