quarta-feira, 21 de junho de 2017

Logística - um capítulo à parte (3)

"A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos."  (Fernando Pessoa)
Saindo de Boracay, o transfer me pegou às 5:15 da manhã, sendo que meu voo era às 11:25, mas considerando a canseira da vinda, optei por não questionar se não era cedo demais - aliás, sou dessas: prefiro esperar na frente do portão de embarque, do que sofrer o calor da disputa contra o relógio.

Depois de descer da van e fazer o trajeto caminhando para o "porto", entrei num barco que parecia ser menor e mais precário do que o primeiro; duvidei da segurança e me retraí, de novo, tentando ficar atenta a qualquer movimento suspeito - de alguém ou de alguma coisa.

Me sentei do lado direito, bem de frente para um homem que não sei estimar a idade, mas que estava sentado, com uma sacola plástica na mão, camiseta, bermuda e chinelo.

Uns cinco minutos depois da arrancada, me levantei, com cuidado, para não me desequilibrar, pois o sol começara a nascer amarelo-fogo e eu não poderia perder aquela foto. Dei um passo em direção ao homem, que olhou para mim e sorriu, como que se concedesse minha aproximação para capturar aquela imagem. Me sentindo à vontade, relaxei e cheguei um pouco mais perto dele; levantei o braço para enquadrar aquela cena, quando estava para clicar no botão do celular, a sacola do homem arrebentou e vi uma galinha prestes a voar em mim; mas ele foi mais rápido e a segurou pelos pés. 

A galinha gritou, eu gritei, o homem gritou, o barco balançou. Eu em pé, sem saber se sentava, com as mãos trêmulas de susto, suava, ria e talvez tenha tido vontade de chorar - tudo misturado. O homem ria, muito. Sem vergonha. Gargalhava e dizia "sorry, ma'am! Sorry, ma'am!". Eu só conseguia xingá-lo, silenciosamente. Ele e a galinha. Que susto! Como a galinha estava ali e ninguém viu? Como a galinha furou a sacola? Vinha bicando desde quando? E que cacarejo foi aquele? E meu grito? Que triângulo!: a galinha, eu, o homem. Sentei. Ri. Ri muito. Perdi a foto, claro. E o homem, com o saco rasgado, segurava a galinha pelos pés e me olhava, rindo. A galinha só virava a cabeça de um lado para outro, com olhos arregalados, coitada! Será que ia para panela? O homem ria. Eu suava: o que será que diríamos um ao outro, se o homem e eu falássemos o mesmo idioma? Ri. Ri por muitas vezes e longos minutos. E mal sabia que aquele momento do barco seria o melhor do dia e que uma galinha despertaria, em mim, a certeza de que muitas vezes me dou a melhor das graças - e alegrias.

Então, sendo dia, pude ver o trajeto e admirar o verde das Filipinas, sob uma perspectiva interiorana, aparentemente, rural. Mesmo que de dentro da van, já depois de pegar o barco, consegui ver melhor como vivem e, de certa forma, me entristeci um pouco com tamanho desequilíbrio social, similar inclusive ao Brasil, ainda que numa camada mais miserável - principalmente a insegurança nos meios de transporte: tuk-tuks super lotados, motos com três ou mais passageiros e nenhuma infra-estrutura de trânsito ou sinalização de direção defensiva - aliás, dirigem como loucos, sem regras de ultrapassagem e, neste ponto, reforço rápido: aconselho fortemente que não viagem pelas Filipinas sem apoio de agência local! Seria insano transitar por todas estas baldeações - aeroportos, portos e estradas com pagamento de taxas locais, como a de terminais ou preservação ambiental - sem orientação segura (de todo modo, desconfie e sempre tente confirmar as taxas, pedindo recibo). Se tem uma coisa que me deu mais paz foi saber que a logística terrestre estava cuidada e que um mínimo de respaldo e apoio eu encontraria.

Por outro lado, a logística dos aeroportos é de dar nos nervos a qualquer monje tibetano - mas até que me saí bem e sigo aprendendo sobre o auto-controle e o lidar com as emoções em situações adversas.

Em Kalibo, por exemplo, aeroporto mais próximo de Boracay, a espera de fato foi longa: cheguei às 7:45 e o voo, para variar, ainda atrasou mais de uma hora e meia; sendo que o wi-fi só funcionava para números filipinos. Neste cenário, de novo, minha maior agonia era dar notícias, então a minha dica deste ponto é: não crie expectativas de fácil acesso à comunicação. Das observações que fiz, diria que a grande maioria local, ou quase isso, não tem smartphones e a disponibilidade de wi-fi ainda é rara - mesmo que paga e, quando funciona, a conexão é lentíssima e permite pouco consumo de dados. Naquele aeroporto, especialmente, não havia telefone público, comércio tipo "lan house", nem venda de sim cards - isso porque é aeroporto "internacional".

Depois dessa, parei de dar sorte para o azar e chegando em Manila para pegar o voo para Puerto Princesa, a primeira coisa que fiz foi providenciar um número local, com internet - coisas que geralmente não faço em viagens curtas.

Ir com o espírito aberto aos atrasos e com passagens largamente espaçadas foi outro grande pulo do gato; sério - de Manila para Puerto Princesa meu voo atrasou mais de três horas; era para eu chegar umas 20h, cheguei quase meia-noite - e estar com agenda para estas locomoções evita o stress de brigar sempre com o relógio e de lidar com eventual perda de compromissos.

Aliás, o que é a vida senão essa vontade louca de voar, até que alguém segura seu pé e você precisa esperar - ou criar - a próxima oportunidade? 

Um comentário:

Fabio Drumond disse...

Isto me faz sempre pensar de que muitas vezes as maiores alegrias da vida estão na pequenas coisas, como rir de sí mesmo numa situação super inusitada com a galinha. :)
Belo texto Babi, como sempre!

Beijos.

Fábio Drumond

*Não adesão à nova regra gramatical.